quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Como tudo muda...


Há cerca de 20 anos ouvia esta música e pensava naquele rapaz (que eu achei que era o tal) que me roubara o coração. Sofria os primeiros desgostos de amor e adormecia a ouvir esta e outras baladas no programa de rádio "Cidade by night".
A verdade é que indo ao youtube e procurando músicas com I miss you, encontrei esta que adoro. No videoclip aparece um casal, mas a letra é intensa e diz o que me vai na alma.
A mesma que nunca escondi de ninguém, apesar das críticas e dos olhares de soslaio.
Mas eu sou assim. Sempre fui e sempre serei. A mima alma pede-me que me fale, que não esconda, que não mascare o que sinto e o que sou. Por isso mesmo escrevo estas linhas e oiço uma música intemporal.
Tal como a escrita a música tem este dom, o de dar voz ao que sentimentos e de nos ajudar a aquecer mais o coração e ganhar alento para seguir em frente.
Hoje iniciou-se mais uma etapa desta tarefa (sem adjectivo possivel) que é habituarmos à ausência da nossa pirralhinha.

Parabéns SOGRO :)

(Foto de Jimmy Duarte Silva - Direitos Reservados)

PARABÉNS! Um dia de aniversário é sempre para comemorar. Não pode ser de outra maneira.
Faça o favor de sorrir porque foi isso que a nossa Leonor nos veio ensinar. Mesmo quando a vida se mostra como este mar. Não é fácil, mas nada é. O mais importante? A nossa união e o nosso amor de família. O que vocês têm e que eu tenho o privilégio de receber. 

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Turbilhão...

Dentro de mim sinto um turbilhão de sentimentos, de memórias...
Quero escrever sobre tudo e quero escrever sobre o nada. Sobre o vazio que ficou no dia-a-dia. Um vazio que sei que nunca será preenchido. Um vazio a que só me resta habituar... muito lentamente. 
As lágrimas por vezes visitam-me, mas obrigo-me a sorrir. Obrigo-me a aproveitar este dia de sol maravilhoso. A dádiva da vida. A mesma dádiva da natureza que já vivi duas vezes. A dádiva da vida que continuo a ter todos os dias com a minha peste doce e as recordações do sorriso constante da minha Ninocas.
Dizem-me corajosa e forte. Não o sou. Apenas me tento agarrar ao que de melhor a vida tem. Ao que de melhor a vida me dá e que tenho. E graças a Deus tenho muita coisa boa. 
Ontem chegou-me este texto do Miguel Esteves Cardoso, que eu tanto prezo, e que tanto diz sobre a perda. A arte e o dom de escrever são mesmo isto: ter o poder de nas entrelinhas passar sentimentos e chegar a quem precisa. 
Obrigada a quem mo enviou e obrigada ao Miguel Esteves Cardoso.

"O tempo é Mestre. E nunca se esquece... apenas fica o que tem de ficar. Do bom a saudade, o amor. Do menos bom a revolta, a frustração. Mas sempre alguma coisa fica. Até que a nossa memória se apague. E é curioso, como as pessoas vão... umas partem para longe, outras para sempre. Mas aquilo que sentimos com maior intensidade por elas, fica eternamente vivo em nós. Não se trata de esquecer, mas de aceitarmos apenas a separação. Processo lento, doloroso...mas o tempo ajuda a por essa pessoa no lugar certo dentro do nosso coração."

domingo, 27 de janeiro de 2013

Na luta...

... contra a saudade;
contra os maus momentos;
contra as imagens más que teimam em não se esconder e puxam pela dor, chega-me de alguém perto, mas não muito, um ensinamento que tento pôr em prática, quinze dias depois de ter tido no colo pela última vez a minha pirralhinha que já dormia para a eternidade:

Uma noite, um velho índio falou ao seu neto sobre o combate que acontece
dentro das pessoas.
Ele disse:
- Há uma batalha entre dois lobos que vivem dentro de todos nós.
Um é Mau - É a raiva, inveja, ciúme, tristeza, cobiça, arrogância,
pena de si mesmo, culpa, ressentimento, inferioridade, orgulho.
O outro é Bom - É alegria, fraternidade, paz, esperança,fé,
humildade, bondade, benevolência, empatia, generosidade, verdade, compaixão.
O neto pensou nessa luta e perguntou ao avô:
- Qual lobo vence?
O velho índio respondeu:
- "Aquele que Tu alimentas !"

24 horas por dia repito para mim não alimentar a tristeza e as imagens más, mas sim o AMOR, a PAZ, a ALEGRIA e todas as coisas boas que só um bebé puro nos transmite. Obrigada filhota Leonor. Ontem, hoje e sempre.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Ser mãe...

....sempre foi um desejo e foi e é a MELHOR descoberta da minha vida.
Esta letra é muito do que sinto como mãe das minhas pirralhinhas, e muito da minha estrela que me vai guiar. Amámo-nos desde o primeiro minuto, amámo-nos ainda mais num temporal chamado doença.
Sem esta minha flor, sem esta minha estrela, eu viveria na escuridão. Assim tenho um jardim. Um jardim onde uma flor chamada Joana cresce radiosa e sorridente. Um jardim onde quero continuar a plantar Amor.




Meu coração, sem direção
Voando só por voar
Sem saber onde chegar
Sonhando em te encontrar
E as estrelas
Que hoje eu descobri
No seu olhar
As estrelas vão me guiar
Se eu não te amasse tanto assim
Talvez perdesse os sonhos
Dentro de mim
E vivesse na escuridão
Se eu não te amasse tanto assim
Talvez não visse flores
Por onde eu vim
Dentro do meu coração
Hoje eu sei, eu te amei
No vento de um temporal
Mas fui mais, muito além
Do tempo do vendaval
Nos desejos
Num beijo
Que eu jamais provei igual
E as estrelas dão um sinal
Se eu não te amasse tanto assim
Talvez perdesse os sonhos
Dentro de mim
E vivesse na escuridão
Se eu não te amasse tanto assim
Talvez não visse flores
Por onde eu vim
Dentro do meu coração

Quando for "grande"...

... quero ser como a minha Joana.
À medida que crescemos somos formatados e perdemos aquilo que no fundo acabamos por mais admirar nas crianças: a pureza e a inocência.
Recordo-me de várias vezes me criticarem por já ter idade para ter juízo, mas gostar de rir e "palhaçar" como uma criança. Foi algo que sempre quis cultivar em mim. Depois disto que agora nos aconteceu, e tendo a Joana como exemplo, quero cultivar isso ainda mais.
Sem invocar desgraças ela assumiu a falta da irmã e as saudades que tem. Mas em vez de as expressar em lamurias e queixumes tão típicos dos adultos, pede-nos coisas simples como olhar para o céu. Mesmo enevoado ela "fala" com a irmã.
Hoje à noite no carro e com o céu mais limpo, algumas estrelas estavam visíveis. Sem que lhe chamássemos à atenção, ela fê-lo por nós e gritou: "Está ali a Leonor". Dissemos que sim, sem esticar conversa receosos que alguma pergunta surgisse e ficássemos sem resposta.
A verdade é que a resposta de que não era necessário recearmos o que quer que seja veio minutos depois, quando após tocar na sua harmónica, a Joana olhou pela janela do carro e disse:
- Leonor, esta música é para ti.
Disfarçámos a emoção inevitável e a Joana decidiu dar-nos mais uma lição:
- A mana já não volta pois não, mãe?
Engoli em seco com medo da reacção e respondi que não. A Joana olhou para mim sorriu e de imediato voltou o seu olhar para o céu. Com o seu sorriso cúmplice e com a malandrice habitual disse:
- Ouviste Leonor?!
Fiquei expectante.
A Joana olhou para mim e sorriu-me marota.
Naquele momento ambas selámos as saudades que temos da nossa Leonor, com a certeza de que não a voltaremos a ver, mas que a temos no momento em que decidirmos olhar para o céu.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Saudades...

... do meu sofá cor-de-rosa.
Sinto como se fosse hoje a alegria e o coração quente que senti quando tirei esta fotografia.


As minhas duas filhas. As minhas duas pirralhas. Com a esperança de que a segunda não viesse a ser tão pirosa como a primeira.
Olho para trás e é como se estivesse num túnel do tempo. Há um ano por esta altura já sabia que estava grávida e queria disfarçar, mas a barriga teimou em começar a notar-se cedo. Da Joana já tinha sido assim. Nove meses voaram. Três meses e meio (até suceder o ataque viral) voaram na delícia da descoberta de um novo ser que trouxemos ao mundo. Um ser maravilhoso que apenas em quatro meses tanto fez e nos vai marcar até ao nosso momento de dizer adeus a este mundo.

Penso nos dois horríveis meses de vómitos e nas minhas infecções respiratórias e... desejava poder estar de novo com todo aquele mau estar horrível e inacabável, mas com a certeza de que a nossa princesa rosa mais pequenina nunca nos deixaria. Corrijo-me, ela não deixou. O seu corpo perdeu a vida. A sua alma faz-nos companhia e cumpre a sua missão.
Mas sou mãe e sou humana. Sinto falta de a ver. De a sentir.

Eu e o Miguel recordámos esta noite a primeira vez que estivemos os quatro dentro do carro.  Parecíamos uma multidão. Éramos uma família. A nossa Joana continua a ser a nossa luz, o nosso furacão, a princesa rosa que enche todos os segundos da nossa vida com sorrisos, mimos, perguntas, malandrices... mas ficou um vazio.
Ao longo do dia parece que tenho um buraco negro ao meu lado. Falta-nos a nossa Leonor. Não estamos nem estaremos enfiados em casa de cara escondida e sorriso morto. Eu então, só digo disparates para me fazer rir e quando a tristeza aperta obrigo-me a sorrir porque era isso que a Leonor fazia. Sorria sempre. E é isso que uma semana depois de lhe dizermos adeus e de lhe darmos asas, que sinto que tenho de fazer. Uma das maiores aprendizagens da minha vida: sorrir para o vazio.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Realidade paralela


É assim que nos sentimos. Temos estado com amigos do coração e tentado voltar ao dia-a-dia o mais normal possível, pois acima de tudo continuamos a ter a outra luz dos nossos olhos. O sorriso da Joana, os seus beijos, as suas birras e as suas traquinices são o que nos liga à terra. 
Mas há momentos em que a saudade bate. A saudade do cheiro, do toque, do sorriso da nossa filha mais nova. A nossa pirralhinha que tanto desejámos e que agora tantas saudades nos faz sentir. É incrível pensar que ela aqui não está. É surreal pensar que foi um vírus de uma bronquiolite que fez com o que o seu coração ficasse assim e há uma semana decidisse não aguentar mais. 
É inimaginável sentir que nunca mais veremos o seu sorriso. Que não a veremos crescer. Aprender as primeiras palavras. Cuspir as primeiras colheres de sopa. Fazer tantas coisas iguais à Joana e outras tantas que a fariam diferente. A nossa ruivinha de sorriso aberto. É impossível fugir das perguntas que nos assolam  o pensamento de como ela seria, o que faria. Temos a certeza de que iria continuar a sorrir para tudo e para todos. Continuaria a brindar e a marcar quem a veria com o seu sorriso. O mesmo que marcou os médicos e as enfermeiras com quem se cruzou. Recuo no tempo e lembro-me dela sedada e entubada em Santa Maria. De imediato, lembro-me do sorriso que espalhou e que desde cedo usou para encher o meu coração. O mesmo sorriso de que agora sinto falta mil vezes ao dia. O mesmo sorriso que só me resta guardar na memória (é o que repito para mim mil vezes). Perder um filho é sem dúvida uma das piores coisas da vida. Sei do que falo pois já perdi avô, pai, amigos e vi muitos amigos perder famíliares. Nós perdemos a vida da nossa Leonor.
A sua alma sei-a comigo e é isso que me ajuda quando saio da nossa realidade paralela e me obrigo a mentalizar de que a minha vida mudou para sempre e terá sempre um vazio, impossível de preencher. Por isso mesmo, eram 2h30m da passada madrugada e eu e o pai, tal como lhe prometi (à Leonor), estávamos no Jezebel e fizemos um brinde em sua honra. Fiéis a nós mesmos. Unidos nesta batalha de vencer a maior tristeza das nossas vidas.
Com a alma dorida, respiramos fundo e sorrimos. Tal como ela nos sorri de onde está e nos sorrirá sempre. 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Porque um dia é O dia

Cresci com a educação de que tudo tinha de ouvir e acatar, sem direito a expressar-me. Graças ao feitio que Alguém me deu, sempre lutei por dar voz à minha alma e coração. Foi esta mesma voz que me fez chegar aqui hoje e escrever estas palavras, bem como, todas as outras que escrevi nos últimos dias que tenho vivido. Dias que não são negros. São cinzentos, pois a tristeza mistura-se com a luz do sorriso que a Leonor deixou nas nossas vidas. 

Desde que engravidei que tinha o feeling que esta miúda me iria mudar e iria mudar muito as nossas vidas. Sempre relativizei o meu sexto sentido, mas mesmo que nunca o tivesse feito, a minha imaginação jamais alcançaria o que acabou de nos suceder e o que agora estamos a viver.

Perguntam-me da dor que devo estar a sentir, mas o que vos digo é que não sinto dor. Sinto um vazio. Apesar de a sentir comigo e de saber que, por alguma razão que só o tempo me dará a resposta, a sensação de que nos falta algo importantissimo é gigante. Fujo das ideias do que o futuro poderia ser. Do que falámos fazer a quatro e agora já só faremos a três. 

As lágrimas são inevitáveis, mas do fundo do coração vem um respirar fundo que nos empurra para a frente, com a certeza de que a nossa vida será sempre iluminada pela nosssa Leonor. 

A morte da Leonor não fez de mim uma desgraçadinha. Só mais uma mãe, que como tantas, perdem os seus filhos. Lembro-me muito da mãe do Rui Pedro. Eu sei onde está a minha Leonor. Ela não sabe do seu filho. Sei que tenho de superar isto. 


Esta perda fez-me olhar ainda com mais assertividade e clarividência para o que realmente importa e que quero na minha vida. 

Há muito que adiava fazer um determinado corte na minha vida. Por respeito, educação,  porque não podemos levar tudo ao extremo... mas há situações que quanto mais se adiam mais nos mostram que não podem ser adiáveis. 

Sempre procurei o amor sincero e desinteressado e encontrei-o. Com o meu querido Miguel, com os meus queridos amigos que não preciso de nomear. Há muito que digo que a minha vida é como um móvel cheio de gavetas de vários tamanhos. Consoante as relações as coisas estão guardadas em determinada gaveta. Hoje o meu móvel ficou com uma gaveta sem fundo. Uma gaveta que há muito eu abria pouco para não me magoar. A gaveta que deveria estar sempre aberta na minha vida e seria a primeira a abrir-se para me dar a mão com sinceridade e ajudar neste momento. Mas isso não aconteceu. Nessa gaveta tem sempre existido inveja, mesquinhez, maldade e nunca Amor. O Amor que eu tenho o privilégio de viver duas vezes na minha vida. 

No dicionário a a palavra corte tem como designação "interrupção de um processo, de uma acção, de um efeito, de uma ligação". Foi isso que eu hoje fiz. Arrancar as ervas daninhas que teimavam em fazer-me sentir mal. As ervas daminhas que desde sempre me apontaram o dedo por querer ser diferente, por crescer como queria, por amar como sempre achei que deveria amar. 

Quem lá no alto tudo gere tem-me ajudado nesta poda incessante que hoje terminou. 

No dia em que me despedi do corpo da minha Brave Leonor e lhe dei asas num sítio que para nós é sinal de amor, olhei em redor e revi a minha manhã. A manhã do dia em que a minha segunda filha fazia 4 meses. A manhã que me mostrou que se acabaram as ervas daninhas. Estava e estou num jardim repleto de flores. O mesmo jardim que quero regar todos os dias para que a minha flor chamada Joana cresça feliz e livre. 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Ensinamentos de filha mais velha

Estava ontem a tomar banho com a Joana e peguei no sabonete Oleoban, que tinha comprado na sexta para a nossa Ninocas.
J: -É o sabonete da mana, não é, mãe?
Eu: - É, mas agora podemos usá-lo nós.
J: Ó mãe como é que a mana agora toma banho?
Eu: - A mana agora é uma estrelinha, toma banho quando chove.
A J. olhou-me descrente e perguntou:
- Ó mãe como é que conseguiste inventar isso?
A mim só me restou ficar boquiaberta e seguir com o banho.
Ao chegarmos ao carro, não contente com o que já me tinha dito voltou-se para o pai:
- Pai, vê lá o que é que a mãe inventou.
E toca de contar o que lhe disse "impressionada" com o que eu inventei.
Todos vocês me dizem que eu tenho força. Não sei se a tenho assim tanta, mas é à certeza de que há crianças especiais como a nossa Joana e a nossa Leonor, que vou buscar a resiliência para aceitar esta minha missão.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

De alma triste mas de coração quente

Acordo e depois de sentir a mais velha acordada e com as cordas vocais no seu máximo, o segundo pensamento é o de olhar para o berço. O berço que ontem já tirámos do quarto, bem como, tudo o que era da Leonor.

"Tem de ser como arrancar um penso rápido", repeti vezes sem conta. A dor é grande, o vazio nem tanto. Sinto-a comigo. Só tenho de me habituar a não a ter aqui nos meus braços, a não ver o seu sorriso quando lhe soprava nas bochechas e lhe fazia bilu-bilu (isto mesmo! Ela adorava).

A casa está mais vazia, mas a J. assumiu a "responsabilidade" de a encher. Ainda há pouco pediu que nos juntássemos em família para um abraço. Ritual há muito instituido ainda antes do nascimento da Leonor. E quando estávamos assim disse: " Eu gosto muito de vocês".
As lágrimas não sairam porque o calor no coração foi maior. Gigante. Sem medida possível de quantificar.
A mais pequena, supostamente mais ingénua é a mais "madura" desta situação. A ligação inexplicável que tinha e tem com a Leonor e que vem de mesmo antes da minha pirralhinha estar na minha barriga, fá-la ajudar-nos a ultrapassar este momento.

Estou atenta aos sinais: a Joana chamou-lhe estrela do amor e o primo chamou-lhe anjo do amor. Não me restam dúvidas de que tive o privilégio de dar corpo e vida a uma alma bem especial. Que nos marcou e nos marcará sempre.

Quem me conhece bem sabe que acredito que nada acontece por acaso. A morte da Leonor não foi por acaso. Ela quis que assim fosse, quando já ninguém esperava que isto aconteceria. Nem os médicos. Ela quis que eu lá não estivesse pois decidiu partir depois de eu sair, depois de me certificar que ela estava mais serena.

No hospital de Santa Maria uma enfermeira muito especial disse-me que quando as crianças não querem viver, de nada vale fazerem o que for. A Leonor em Santa Maria lutou e ficou aqui. Em Santa Cruz decidiu que era a sua hora, mesmo tendo os médicos feito tudo o que podiam. Nunca vou esquecer a cara de todos. A frustração de tentar salvar um bebé e ter de o ver partir.

Mas para mim só o corpo foi. A Leonor está e estará sempre viva dentro de nós. Um dia será ela a guiar-me para onde irei, quando chegar a minha vez. Quando a minha missão estiver cumprida, tal como a dela se cumpriu neste meses.

As suas cinzas voaram ao sol e sob a brisa do guincho no local onde eu e o pai há 8 anos celebrámos o nosso amor. Com altos e baixos lutámos e ultrapassámos todas as barreiras, valendo-nos do amor que sentimos e que fomos fortalecendo. Com o nascimento das nossas filhas e com a morte da nossa Leonor.

Com a minha pirralhinha ao colo prometi-lhe dar sentido ao que aconteceu. Pedi-lhe força e clarividência para perceber o que tenho de fazer para continuar esta missão que ela veio cumprir. Peço a Deus e ao Universo que me iluminem e me ajudem nesta caminhada.

O meu irmão, seu padrinho, há uma semana comprou-lhe em Inglaterra para trazer, uma boneca da Brave e foi uma das coisas que ela levou consigo. Com a roupa que a tia tinha comprado para vestir no Natal, as nossas fotos e os brinquedos que a acompanharam no hospital, o corpo da nossa Leonor foi no dia em que fazia 4 meses.

A Leonor foi e será sempre a nossa Brave, a estrela no céu a quem diremos boa noite todos os dias, o anjo do amor, que a todos uniu e ensinou a sorrir. Sempre. Até na dor e da adversidade.

Obrigada minha querida Joana pelo ser especial que és e pela ajuda que nos estás a dar
Obrigada minha querida Leonor pelo amor que me fizeste e fazes sentir

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Até já meu anjo...

Há pouco tempo enviaram-me o texto onde se lê no fim:"Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo."


A vida tem-me ensinado a fazer isso mesmo. Com as pedras que tenho tido no meu caminho aprendi a  fazer um castelo. Um castelo com um príncipe amoroso e fantástico e duas princesas maravilhosas e especiais.


Desde o primeiro momento em que começou a ganhar vida dentro de mim, a Leonor ensinou-me que nada se planeia. Vive-se um dia de cada vez e tudo muda num segundo. Não é que eu já não soubesse, mas a Leonor sempre se certificou que eu não esquecesse esta lição. Mesmo quando decidiu que chegou a sua hora, voltou a fazê-lo.

Florbela Espanca escreveu que “amar alguém o mesmo é que atirar pétalas ao vento”. Amar também é deixar ir e por isso é que com o coração quente por sentir a alma da minha pirralhinha que sinto que a minha princesa volta para onde veio e que nos vai iluminar hoje e sempre.


Agradeço-lhe e a quem lá mais alto tudo gere esta dádiva de 4 meses. Este amor que nunca acabará. 

Somos 3 fisicamente e seremos 4 para a eternidade.

Até já minha pirralhinha, meu anjo… A nossa eterna guerreira

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Ano novo, Vida nova

Literalmente! Terminámos o ano com a alegria da nossa filha mais nova ter sobrevivido. Não foi um milagre no Natal, porque esse passámo-lo de coração nas mãos (mas é o nosso milagre de Natal). Melhor, o meu desapareceu no dia 23 de Dezembro à tarde aqui em casa e deixou um buraco negro, que foi desaparecendo à medida que a nossa Ninocas melhorou, foi sorrindo e perdendo as máquinas e os fios que a ajudaram a viver.
Escrevo este texto, surpreendentemente de casa, para onde viemos de autorização médica até sábado, para resguardar a Leonor dos vírus que andam por aí. Isoladas e sem autorização para visitas, com a Joana, a entrar da escola directa para a banheira e eu e a Mid a tentar não ficar maluquinhas e germofóbicas.
Ano novo, vida nova porque a nossa filha está viva, mas está muito doente. Estas horas em casa, em que temos de lhe dar a medicação (parece uma farmácia mas com apenas 4 meses) e o estar sempre a perceber se ela está bem, deixam-nos de cabelos em pé. Qualquer sinal, pode ser sinal de algo que não queremos e que infelizmente ainda é e será uma realidade. Temos de nos habituar à ideia que temos uma filha doente cardíaca. Neste momento não sabemos por quanto tempo, nem se algum dia ela ficará bem e sem lesões. Acreditamos que sim. Queremos acreditar que sim. Mas por agora enchemos o peito de ar e habituamo-nos a esta nova realidade: à fragilidade ainda maior da nossa pirralhinha.